«Fio Solto
Parece que estamos num filme de Larry Clark - o realizador de Kids (1995) e Ken Park (2002), dois filmes provocadores sobre famílias disfuncionais e adolescentes à procura da identidade sexual, sempre muito drogados e rebeldes. A personagem principal deste Fio Solto (My Loose Thread, no original), romance de Dennis Cooper agora publicado em português, chama-se precisamente Larry. E Larry mantém uma relação incestuosa com o irmão, Jim. A relação foi descoberta por Rand. Larry matou Rand e agora é pago por um amigo de liceu para matar outro colega. O sexo entre iguais é frequente, a confusão na cabeça destes adolescentes e a violência entre eles também. E, tal como nos filmes de Larry Clark, a família é o último sítio onde podem encontrar alguém sério.
A linguagem é a mesma que Dennis Cooper costuma usar nos seus livros. Tão explícita e gratuita quanto isto: "Tiro a minha Pepsi e seguro-a no meio das pernas. Mas está gelada e demasiado perto dos meus colhões, por isso tenho de ajeitá-la"; "A mãe costumava vendê-lo a paneleiros e eles batiam-lhe e faziam paneleirices sádicas com ele"; "Quero bater-lhe com tanta força, que ele vai morrer. Não aguento querer que ele me ame daquela maneira e quero que ele se mate de vez".
Cooper, 55 anos, nasceu na Califórnia e tem vivido em Amesterdão e Paris. Começou a escrever em 1976. Além de ficção, assina poesia e ensaio (incluindo sobre Nan Goldin, fotógrafa de personagens marginais).
No passado, a editora de Fio Solto, a Bico de Pena, já tinha publicado purosexo.com (The Sluts), a primeira tradução portuguesa de um livro de Cooper. A Bico de Pena faz parte do gigantesco grupo de comunicação Bertelsmann e é a única editora em Portugal que se dedica sistematicamente à edição de livros de temática gay.» Bruno Horta
Revista TimeOut, 6 de Agosto de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
Crítica de imprensa:
Vida sem room service
Em vários registos estilísticos controlados com mão de mestre, Ali Smith conta-nos da dor, da tristeza e da esperança, num romance nostálgico a cinco vozes. Hotel Mundo confirma o talento literário desta original escritora britânica.
«Aaaa-aaaah que queda que voo que descida que corrida para as trevas para a luz que mergulho que deslize baque choque que tombo que […].» Assim começa o romance Hotel Mundo, de Ali Smith (Inverness, 1962). É o fantasma de Sara Wilby, uma empregada de hotel de 19 anos de idade, recentemente falecida num estranho acidente, que assim nos narra o angustiante momento da sua morte. Sara, na sua segunda noite de trabalho no Hotel Global, numa brincadeira aparentemente inocente, apostou cinco libras em como se conseguiria introduzir num elevador para pratos. O cabo de suspensão partiu-se, e Sara, já dentro da caixa metálica, caiu quatro andares até à cave, pelo fosso do monta-pratos. Este é o capítulo mais nostálgico de todo o livro e, provavelmente, o mais conseguido (rivalizando com o último). O fantasma, prestes a despedir-se deste mundo (esta é a sua última noite), começa a ter saudades de tudo, até da dor: «Sentir uma pedra a chocalhar dentro do sapato enquanto ando, uma pedra pequena e pontiaguda, que se espete em diferentes partes da planta do meu pé e me provoque uma dor agradável.»
O romance está dividido em seis partes, cujos títulos nos remetem para diferentes tempos narrativos: «Passado», «Presente Histórico». «Condicional Futuro», «Perfeito», «Futuro no Passado» e Presente». Cada uma delas, à excepção da última, dá voz a uma das cinco personagens, todas femininas: o já referido fantasma de Sara, Else (uma pedinte sem abrigo, presumivelmente tubercolosa, que se senta no exterior do Hotel Global), Lise (a empregada da recepção, que sofre de uma estranha doença e que oferece um quarto a Else), Penny (a jornalista antipática), e a irmã de Sara, a morta. O hotel funciona no romance não apenas como cenário e «motivo», mas como o lugar aglutinador de que dependem as várias vidas narradas; são todas, de alguma maneira (e aqui o bizarro acidente do elevador é o «estribilho»), vidas em «queda», gente prestes a fazer o check out (nem o fantasma consegue escapar).
O que fascina em Hotel Mundo – para além da peculiaridade das histórias contadas e da sua extraordinária carga de afectos muito «à flor da pele» –, é a desenvoltura narrativa e a segurança de Ali Smith. Em registos estilísticos diferentes (por vezes a fazer lembrar Beckett), consegue controlar o ritmo da história sem nunca «perder a mão», sem se deixar levar em tentadores e fáceis «efeitos pirotécnicos». Ali Smith é, sem dúvida, uma das mais talentosas e originais escritoras britânicas. José Riço Direitinho
Revista Ler, Julho de 2008
Vida sem room service
Em vários registos estilísticos controlados com mão de mestre, Ali Smith conta-nos da dor, da tristeza e da esperança, num romance nostálgico a cinco vozes. Hotel Mundo confirma o talento literário desta original escritora britânica.
«Aaaa-aaaah que queda que voo que descida que corrida para as trevas para a luz que mergulho que deslize baque choque que tombo que […].» Assim começa o romance Hotel Mundo, de Ali Smith (Inverness, 1962). É o fantasma de Sara Wilby, uma empregada de hotel de 19 anos de idade, recentemente falecida num estranho acidente, que assim nos narra o angustiante momento da sua morte. Sara, na sua segunda noite de trabalho no Hotel Global, numa brincadeira aparentemente inocente, apostou cinco libras em como se conseguiria introduzir num elevador para pratos. O cabo de suspensão partiu-se, e Sara, já dentro da caixa metálica, caiu quatro andares até à cave, pelo fosso do monta-pratos. Este é o capítulo mais nostálgico de todo o livro e, provavelmente, o mais conseguido (rivalizando com o último). O fantasma, prestes a despedir-se deste mundo (esta é a sua última noite), começa a ter saudades de tudo, até da dor: «Sentir uma pedra a chocalhar dentro do sapato enquanto ando, uma pedra pequena e pontiaguda, que se espete em diferentes partes da planta do meu pé e me provoque uma dor agradável.»O romance está dividido em seis partes, cujos títulos nos remetem para diferentes tempos narrativos: «Passado», «Presente Histórico». «Condicional Futuro», «Perfeito», «Futuro no Passado» e Presente». Cada uma delas, à excepção da última, dá voz a uma das cinco personagens, todas femininas: o já referido fantasma de Sara, Else (uma pedinte sem abrigo, presumivelmente tubercolosa, que se senta no exterior do Hotel Global), Lise (a empregada da recepção, que sofre de uma estranha doença e que oferece um quarto a Else), Penny (a jornalista antipática), e a irmã de Sara, a morta. O hotel funciona no romance não apenas como cenário e «motivo», mas como o lugar aglutinador de que dependem as várias vidas narradas; são todas, de alguma maneira (e aqui o bizarro acidente do elevador é o «estribilho»), vidas em «queda», gente prestes a fazer o check out (nem o fantasma consegue escapar).
O que fascina em Hotel Mundo – para além da peculiaridade das histórias contadas e da sua extraordinária carga de afectos muito «à flor da pele» –, é a desenvoltura narrativa e a segurança de Ali Smith. Em registos estilísticos diferentes (por vezes a fazer lembrar Beckett), consegue controlar o ritmo da história sem nunca «perder a mão», sem se deixar levar em tentadores e fáceis «efeitos pirotécnicos». Ali Smith é, sem dúvida, uma das mais talentosas e originais escritoras britânicas. José Riço Direitinho
Revista Ler, Julho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Imprensa:
«A Farmacêutica
Esparbec
Num registo que desafia a designação de pornografia, Esparbec (ou, melhor, o escritor que se esconde neste pseudónimo) conta-nos a história de Laura, da sua filha Bertrande e das relações promíscuas que têm lugar à sua volta. Do primo ao padrasto, poucos escaparão à fúria libidinosa da jovem, sob o "olhar" cúmplice da mãe. Uma narrativa desbragada, onde os limites da imoralidade são postos em causa e o desejo norteia o evoluir da narrativa.»
Os Meus Livros, Abril 2008
«A Farmacêutica
Esparbec
Num registo que desafia a designação de pornografia, Esparbec (ou, melhor, o escritor que se esconde neste pseudónimo) conta-nos a história de Laura, da sua filha Bertrande e das relações promíscuas que têm lugar à sua volta. Do primo ao padrasto, poucos escaparão à fúria libidinosa da jovem, sob o "olhar" cúmplice da mãe. Uma narrativa desbragada, onde os limites da imoralidade são postos em causa e o desejo norteia o evoluir da narrativa.»
Os Meus Livros, Abril 2008
Imprensa:
«América XXI
Interessante antologia de contos esta, que dá a conhecer alguns dos principais escritores americanos da actualidade, que aos poucos começam a afirmar-se. É uma geração «pós-pós-moderna, pós-geração X, pré-11 de Setembro», como diz Zadie Smith no prefácio, «longe da América de Saul Bellow, onde tudo era possível, da raiva masculina de Philip Roth, do lirismo de Tony Morrison». Na impossibilidade de seguir os passos percorridos pelos seus antecessores, este autores são marcados por «uma melancolia e um talento inexplicáveis». Dave Eggers, David Foster Wallece, George Saunders, Jeffrey Eugenides, Jonathan Safran Foer e Rick Moody são alguns dos escritores representados.»
Jornal de Letras, 26 de Março
«América XXI
Interessante antologia de contos esta, que dá a conhecer alguns dos principais escritores americanos da actualidade, que aos poucos começam a afirmar-se. É uma geração «pós-pós-moderna, pós-geração X, pré-11 de Setembro», como diz Zadie Smith no prefácio, «longe da América de Saul Bellow, onde tudo era possível, da raiva masculina de Philip Roth, do lirismo de Tony Morrison». Na impossibilidade de seguir os passos percorridos pelos seus antecessores, este autores são marcados por «uma melancolia e um talento inexplicáveis». Dave Eggers, David Foster Wallece, George Saunders, Jeffrey Eugenides, Jonathan Safran Foer e Rick Moody são alguns dos escritores representados.»
Jornal de Letras, 26 de Março
Crítica:
«Uma geração em fuga
Com as atenções centradas na eleição do 44.º presidente dos EUA, Gonçalo Paixão mergulhou num livro de uma geração de viragem marcada pelo 11 de Setembro
Diz a capa que este volume foi organizado pela premiada escritora inglesa Zadie Smith (autora de Da Beleza). Na realidade, e para quem ler o preâmbulo, não é bem assim. Conta ela que numa noite de bebedeira em Itália conheceu dois jovens editores que não só a fizeram assinar um contrato para a edição do seu próximo livro num guardanapo de taberna, mas também que lhe enviariam mais tarde esta compilação para ser editada em Itália. Como ela diz: "Foi um parto fruto do amor, mas quem sofreu as contracções foi outra pessoa."
Há em Geração Queimada da América a consciência de um mal-estar social. De uma instrospecção profunda sobre o amor, a vida, a morte, a efemeridade, a ingenuidade e a capacidade inata de nos observarmos. Da história doce de Matthew Klam que mostra como o amor é questionável e nessas questões crescemos e nos conhecemos, à profunda crítica social à América dos malls e da comida rápida de Jonathan Letham. É um livro mágico, contos saídos de uma geração que viveu a viragem de fortuna e felicidade da Era Clinton para a descoberta da pobreza do período Bush. São histórias que se bebem entre paragens do metro e onde realidade e ficção, futurismo e consciência social se fundem num só volume de várias histórias, como uma janela sobre uma geração cuja impertinência nos deixa felizes por haver um tempo de pausa entre cada uma, permitindo cheirar uma realidade na qual nos revemos mas que sentimos não ser nossa. É uma geração que publica as primeiras obras no virar do século e tem nas mãos uma América deprimida, descontente consigo mesma e à procura de um rumo, em que o medo da morte, da velhice, da busca da eternidade parece importar mais que tudo. O volume conta com 19 dos mais brilhantes autores americanos.
Alguns exemplos: O volume abre com uma ficção científica hilariante sobre a decadência da América e a ideia de paternidade. Segue-se uma história de amor e das dificuldades de um jovem casal em sobreviver perante um conjunto de comezinhas realidades que corroem. Está recheado dos episódios mágico-trágicos em que a realidade é moldada.
Os Primeiros Homens, de Zadie Smith, é sobre a decadência da classe média americana, da juventude e da subversão dos papéis entre adultos e crianças. O protagonista fala de um herói com os dedos em forma de chave que abre portas. Centros Comerciais Invisíveis é uma comédia baseada nos enormes centros comerciais que povoam a América do Norte. Arthur Bradford relata a amizade numa família calma onde um evento inesperado muda tudo. Fantasia de Acesso é sob o peso de um mundo em mudança, numa metáfora perfeita e com um twist final surpreendente. Sam Lipsyte, com O Braço Mau, remete para a curiosidade e imaginação infantil a partir de uma mãe a morrer. Circulação é uma curiosidade sobre o funcionamento do mundo. Manual para Pontuar Doenças de Coração fala da genética, da genealogia, do amor e dos códigos de silêncio e sussurro que nos fazem comunicar sem falar.
Este conjunto de ficções devora-se e é indispensável para compreender uma geração cansada e desiludida, com demasiado medo da morte e demasiadas culpas por ser rica, branca e de um país rico. Mas também indispensável por ser luminoso, inspirado e infinitamente rico numa cultura que julgamos conhecer.»
Time Out Lisboa, 26 de Março
«Uma geração em fuga
Com as atenções centradas na eleição do 44.º presidente dos EUA, Gonçalo Paixão mergulhou num livro de uma geração de viragem marcada pelo 11 de Setembro
Diz a capa que este volume foi organizado pela premiada escritora inglesa Zadie Smith (autora de Da Beleza). Na realidade, e para quem ler o preâmbulo, não é bem assim. Conta ela que numa noite de bebedeira em Itália conheceu dois jovens editores que não só a fizeram assinar um contrato para a edição do seu próximo livro num guardanapo de taberna, mas também que lhe enviariam mais tarde esta compilação para ser editada em Itália. Como ela diz: "Foi um parto fruto do amor, mas quem sofreu as contracções foi outra pessoa."
Há em Geração Queimada da América a consciência de um mal-estar social. De uma instrospecção profunda sobre o amor, a vida, a morte, a efemeridade, a ingenuidade e a capacidade inata de nos observarmos. Da história doce de Matthew Klam que mostra como o amor é questionável e nessas questões crescemos e nos conhecemos, à profunda crítica social à América dos malls e da comida rápida de Jonathan Letham. É um livro mágico, contos saídos de uma geração que viveu a viragem de fortuna e felicidade da Era Clinton para a descoberta da pobreza do período Bush. São histórias que se bebem entre paragens do metro e onde realidade e ficção, futurismo e consciência social se fundem num só volume de várias histórias, como uma janela sobre uma geração cuja impertinência nos deixa felizes por haver um tempo de pausa entre cada uma, permitindo cheirar uma realidade na qual nos revemos mas que sentimos não ser nossa. É uma geração que publica as primeiras obras no virar do século e tem nas mãos uma América deprimida, descontente consigo mesma e à procura de um rumo, em que o medo da morte, da velhice, da busca da eternidade parece importar mais que tudo. O volume conta com 19 dos mais brilhantes autores americanos.
Alguns exemplos: O volume abre com uma ficção científica hilariante sobre a decadência da América e a ideia de paternidade. Segue-se uma história de amor e das dificuldades de um jovem casal em sobreviver perante um conjunto de comezinhas realidades que corroem. Está recheado dos episódios mágico-trágicos em que a realidade é moldada.
Os Primeiros Homens, de Zadie Smith, é sobre a decadência da classe média americana, da juventude e da subversão dos papéis entre adultos e crianças. O protagonista fala de um herói com os dedos em forma de chave que abre portas. Centros Comerciais Invisíveis é uma comédia baseada nos enormes centros comerciais que povoam a América do Norte. Arthur Bradford relata a amizade numa família calma onde um evento inesperado muda tudo. Fantasia de Acesso é sob o peso de um mundo em mudança, numa metáfora perfeita e com um twist final surpreendente. Sam Lipsyte, com O Braço Mau, remete para a curiosidade e imaginação infantil a partir de uma mãe a morrer. Circulação é uma curiosidade sobre o funcionamento do mundo. Manual para Pontuar Doenças de Coração fala da genética, da genealogia, do amor e dos códigos de silêncio e sussurro que nos fazem comunicar sem falar.
Este conjunto de ficções devora-se e é indispensável para compreender uma geração cansada e desiludida, com demasiado medo da morte e demasiadas culpas por ser rica, branca e de um país rico. Mas também indispensável por ser luminoso, inspirado e infinitamente rico numa cultura que julgamos conhecer.»
Time Out Lisboa, 26 de Março
Crítica:
Geração Queimada da América
Org. Zadie Smith
«Almas Queimadas
Muitos destes contos assentam numa disfunção relacional, mas nunca expressa de forma explícita - seja num ambiente familiar, seja no que respeita a relacionamentos amorosos. Grande parte das histórias aqui reunidas assentam numa linguagem repleta de metáforas. Encontramos uma paixão obsessiva pela Barbie (essa mesma, a boneca da Mattel) que redunda em estranhas cenas de sexo; uma carta de resposta a um cliente descontente, de uma empresa que comercializa um bizarro aparelho que "simula" respostas de um bebé com carácter adulto; um rapaz cujos dedos abrem nove portas, (quais? só saberá ao longo da vida); um conjunto de cartas escritas a directores de empresas na pessoa de um cão; uma transposição do imaginário linguístico de "As Cidades Invisíveis" para centros comerciais; uma mulher a quem nascem dentes em todo o corpo.
Trata-se de uma compilação de 19 contos, de outros tantos autores que representam a nova escrita americana. Há quem evidencie formas mais experimentais ("Teste de Interpretação", de Myla Golberg, sob a forma de questionário de resposta múltipla ou "Manual para Pontuar as Doenças do Coração", de Jonathan Safran Foer). Mas há quem escreva de forma intimista, com uma forte carga psicológica ("Devia Haver Um Nome para Isso", de Matthew Klam ou "Timesharing", de Jeffrey Eugenides). Apesar do mediático nome de Zadie Smith na capa a responsabilidade pela antologia é essencialmente dos editores italianos Marco Cassini e Martina Testa, como percebemos na nota de introdução. Apesar da oscilação da qualidade dos escritos (nada que não seja natural numa antologia, ainda por cima de autores com pouca coisa publicada) este é um livro que vale a pena ler - mais do que uma geração o que une estes textos é um sentimento de melancolia, uma tristeza que não necessita de justificação racional para existir. E, apesar de tudo, a vida move-se.»
Os Meus Livros, Março 2008
Geração Queimada da América
Org. Zadie Smith
«Almas Queimadas
Muitos destes contos assentam numa disfunção relacional, mas nunca expressa de forma explícita - seja num ambiente familiar, seja no que respeita a relacionamentos amorosos. Grande parte das histórias aqui reunidas assentam numa linguagem repleta de metáforas. Encontramos uma paixão obsessiva pela Barbie (essa mesma, a boneca da Mattel) que redunda em estranhas cenas de sexo; uma carta de resposta a um cliente descontente, de uma empresa que comercializa um bizarro aparelho que "simula" respostas de um bebé com carácter adulto; um rapaz cujos dedos abrem nove portas, (quais? só saberá ao longo da vida); um conjunto de cartas escritas a directores de empresas na pessoa de um cão; uma transposição do imaginário linguístico de "As Cidades Invisíveis" para centros comerciais; uma mulher a quem nascem dentes em todo o corpo.
Trata-se de uma compilação de 19 contos, de outros tantos autores que representam a nova escrita americana. Há quem evidencie formas mais experimentais ("Teste de Interpretação", de Myla Golberg, sob a forma de questionário de resposta múltipla ou "Manual para Pontuar as Doenças do Coração", de Jonathan Safran Foer). Mas há quem escreva de forma intimista, com uma forte carga psicológica ("Devia Haver Um Nome para Isso", de Matthew Klam ou "Timesharing", de Jeffrey Eugenides). Apesar do mediático nome de Zadie Smith na capa a responsabilidade pela antologia é essencialmente dos editores italianos Marco Cassini e Martina Testa, como percebemos na nota de introdução. Apesar da oscilação da qualidade dos escritos (nada que não seja natural numa antologia, ainda por cima de autores com pouca coisa publicada) este é um livro que vale a pena ler - mais do que uma geração o que une estes textos é um sentimento de melancolia, uma tristeza que não necessita de justificação racional para existir. E, apesar de tudo, a vida move-se.»
Os Meus Livros, Março 2008
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Imprensa:
«E se numa noite de Verão um escritor
E se numa noite de Verão um escritor (um escritor que conhece Shakespeare, obviamente, como toda a gente) acordasse sobressaltado e fosse dar uma volta pelo bairro tranquilo de classe média onde vive e descobrisse "um solitário casal nu" representando, sem saber, um sonho de amor de shakespereano no centro de um estádio deserto? No caso de "O Banquete do Amor", Charles Baxter, o próprio, encontra depois um vizinho, que acaba de separar-se da segunda mulher, sentado com o cão num parque infantil (ambos, homem e cão, se chamam Bradley), a meditar nos mistérios do amor: "Realmente não tem nada a ver com o que eu imaginava, quando andava no liceu e me punha a pensar como é que o amor seria". É este vizinho que sugere a Baxter, o Baxter personagem secundária e primeiro narrador da história, que escreva um livro intitulado "O Banquete do Amor". E dá-lhe o programa: "Deixa toda a gente a falar! Vou mandar-te pessoas, pessoas verdadeiras para variar, seres humanos que existem realmente, e tu vais ouvir o que eles têm a dizer durante um bocado. Toda a gente tem uma história para contar e nós vamos começar a contar-te as histórias que temos".
Exposto o assunto desta maneira, tratar-se-á de ouvir contar a autobiografia sentimental (e sexual, evidentemente) de pessoas "verdadeiras" –, põe-se o dispositivo em marcha no capítulo seguinte. Como no "Decameron", de Boccaccio, ou nos "Contos da Cantuária", de Chaucer, sucessivos narradores tomam então a palavra: Bradley (o homem, não o cão); a primeira mulher dele, que o deixou quando se apaixonou por outra mulher; uma jovem chamada Chloé, empregada do restaurante de Bradley (pintor nas horas desiludidas: "Banquete do Amor" é também o título de um quadro dele), que diz que o sexo com o namorado era "tão bom […] que achámos que devia haver maneira de ganharmos dinheiro com isso" (e hão-de ganhar); um casal de intelectuais judeus de esquerda (vizinhos de Bradley), ele sendo um professor universitário de filosofia que quer escrever um livro "sobre Kierkegaard e o seu admirador Wittgenstein" (digamos que este professor, com as suas insistentes referências ao filósofo dinamarquês, é o amparo erudito e "sério" do tema do romance); a segunda mulher de Bradley…
O assunto nuclear do romance – o famoso amor –, o facto de todos os narradores estarem relacionados com Bradley e a montagem das suas narrações, que faz com que a voz de cada um deles regresse uma e outra vez interpolada nas outras, fazem a "unidade" do livro. A montagem tem outra consequência: apesar de as histórias serem "paralelas", o romance progride temporalmente. A difícil comunicação entre pais e filhos (outra modalidade do amor) é um subtema do livro.
A certa altura, Lisboa aparece na história. Como cidade "imaginada" pela insónia do estudioso de Kierkegaard, que deve ter andado também a ler Bernardo Soares. Vem descrita como "cosmopolita, mas letárgica" e "uma cidade em elegante declínio". O professor, que não lê português, senta-se numa esplanada "próximo do porto" a ler um jornal imaginário "em português imaginário". É um dos melhores momentos do livro "O jornal que imagino aborda assuntos triviais numa prosa ligeira e tão bonita que raia o cómico. É o paraíso, ler um jornal que só contém assuntos inconsequentes, escrito por prosistas pretensiosos. Um ladrão rouba uma carteira a uma mulher numa loja de cabedais, tudo isso relatado num estilo que teria feito jus a Gibbon […]. Noutra secção do jornal, um gato é dado como desaparecido, mas a história foi escrita por G.W.F. Hegel e mal se dá pelo gato. […] Noutra página, Proust narra um jogo de futebol, Heine põe um apartamento à venda, Colette descreve uma discussão entre dois vizinhos. Virginia Woolf é responsável pelas páginas de economia […]".
Baxter é bom escritor e "O Banquete do Amor", não se comprometendo excessivamente, nem com a leveza levemente lírica e um pouco sentimental que lhe está na alma, nem com os acenos cúmplices à ironia meditativa da razão, lê-se bem. Fica-se até com pena de o romance não ser melhor. Mas não há dúvida: o amor na sua dimensão de entretenimento espiritual, pelo menos, está no ar do tempo.
Charles Baxter nasceu em 1947 em Minneapolis, nos Estados Unidos da América. Estudou inglês, ensinou escrita criativa, é professor na Universidade do Minnesota. Publicou contos, poesia, ensaios e romances. "O Banquete do Amor" é o seu terceiro romance. Foi finalista do "National Book Award" norte-americano e originou um filme, realizado por Robert Benton, que estreia esta semana.»
Mário Santos, Ípsilon, Público, sexta-feira, 25 de Janeiro
«E se numa noite de Verão um escritor
E se numa noite de Verão um escritor (um escritor que conhece Shakespeare, obviamente, como toda a gente) acordasse sobressaltado e fosse dar uma volta pelo bairro tranquilo de classe média onde vive e descobrisse "um solitário casal nu" representando, sem saber, um sonho de amor de shakespereano no centro de um estádio deserto? No caso de "O Banquete do Amor", Charles Baxter, o próprio, encontra depois um vizinho, que acaba de separar-se da segunda mulher, sentado com o cão num parque infantil (ambos, homem e cão, se chamam Bradley), a meditar nos mistérios do amor: "Realmente não tem nada a ver com o que eu imaginava, quando andava no liceu e me punha a pensar como é que o amor seria". É este vizinho que sugere a Baxter, o Baxter personagem secundária e primeiro narrador da história, que escreva um livro intitulado "O Banquete do Amor". E dá-lhe o programa: "Deixa toda a gente a falar! Vou mandar-te pessoas, pessoas verdadeiras para variar, seres humanos que existem realmente, e tu vais ouvir o que eles têm a dizer durante um bocado. Toda a gente tem uma história para contar e nós vamos começar a contar-te as histórias que temos".Exposto o assunto desta maneira, tratar-se-á de ouvir contar a autobiografia sentimental (e sexual, evidentemente) de pessoas "verdadeiras" –, põe-se o dispositivo em marcha no capítulo seguinte. Como no "Decameron", de Boccaccio, ou nos "Contos da Cantuária", de Chaucer, sucessivos narradores tomam então a palavra: Bradley (o homem, não o cão); a primeira mulher dele, que o deixou quando se apaixonou por outra mulher; uma jovem chamada Chloé, empregada do restaurante de Bradley (pintor nas horas desiludidas: "Banquete do Amor" é também o título de um quadro dele), que diz que o sexo com o namorado era "tão bom […] que achámos que devia haver maneira de ganharmos dinheiro com isso" (e hão-de ganhar); um casal de intelectuais judeus de esquerda (vizinhos de Bradley), ele sendo um professor universitário de filosofia que quer escrever um livro "sobre Kierkegaard e o seu admirador Wittgenstein" (digamos que este professor, com as suas insistentes referências ao filósofo dinamarquês, é o amparo erudito e "sério" do tema do romance); a segunda mulher de Bradley…
O assunto nuclear do romance – o famoso amor –, o facto de todos os narradores estarem relacionados com Bradley e a montagem das suas narrações, que faz com que a voz de cada um deles regresse uma e outra vez interpolada nas outras, fazem a "unidade" do livro. A montagem tem outra consequência: apesar de as histórias serem "paralelas", o romance progride temporalmente. A difícil comunicação entre pais e filhos (outra modalidade do amor) é um subtema do livro.
A certa altura, Lisboa aparece na história. Como cidade "imaginada" pela insónia do estudioso de Kierkegaard, que deve ter andado também a ler Bernardo Soares. Vem descrita como "cosmopolita, mas letárgica" e "uma cidade em elegante declínio". O professor, que não lê português, senta-se numa esplanada "próximo do porto" a ler um jornal imaginário "em português imaginário". É um dos melhores momentos do livro "O jornal que imagino aborda assuntos triviais numa prosa ligeira e tão bonita que raia o cómico. É o paraíso, ler um jornal que só contém assuntos inconsequentes, escrito por prosistas pretensiosos. Um ladrão rouba uma carteira a uma mulher numa loja de cabedais, tudo isso relatado num estilo que teria feito jus a Gibbon […]. Noutra secção do jornal, um gato é dado como desaparecido, mas a história foi escrita por G.W.F. Hegel e mal se dá pelo gato. […] Noutra página, Proust narra um jogo de futebol, Heine põe um apartamento à venda, Colette descreve uma discussão entre dois vizinhos. Virginia Woolf é responsável pelas páginas de economia […]".
Baxter é bom escritor e "O Banquete do Amor", não se comprometendo excessivamente, nem com a leveza levemente lírica e um pouco sentimental que lhe está na alma, nem com os acenos cúmplices à ironia meditativa da razão, lê-se bem. Fica-se até com pena de o romance não ser melhor. Mas não há dúvida: o amor na sua dimensão de entretenimento espiritual, pelo menos, está no ar do tempo.
Charles Baxter nasceu em 1947 em Minneapolis, nos Estados Unidos da América. Estudou inglês, ensinou escrita criativa, é professor na Universidade do Minnesota. Publicou contos, poesia, ensaios e romances. "O Banquete do Amor" é o seu terceiro romance. Foi finalista do "National Book Award" norte-americano e originou um filme, realizado por Robert Benton, que estreia esta semana.»
Mário Santos, Ípsilon, Público, sexta-feira, 25 de Janeiro
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