segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Excerto:
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O Banquete do Amor


«– Olá – diz ele –, Charlie. Que diabo fazes tu aqui? O que é que se passa?
Quando me sento ao lado dele, consigo ver-lhe os óculos, que reflectem o quarto minguante da Lua e uma ténue estrela cadente. Na penumbra, ele tem um rosto suave e atraente, cabelos grossos encaracolados e um sorriso amável e desarmante, como o de um empregado bancário que ainda não decidiu se o nosso historial financeiro nos permite pedir um empréstimo ou não. Os seus olhos são grandes e pensativos, como os de um sapo. Concluo rapidamente que, se ele está sentado aqui fora, neste bando de parque, neste momento, é porque deve ser um homem particularmente infeliz, insone, atormentado ou mal de amores.
– Olá, Bradley – respondo. – Nada de especial. Vim dar uma volta. É uma noite de Verão e estou com insónias. Veja que também ainda estás acordado.
– É – diz ele, assentindo desnecessariamente com a cabeça –, é verdade.
Ficamos ambos calados, à espera. Por fim, pergunto-lhe:
– A que propósito é que estás a pé?
– Eu? Oh, estive ocupado até tarde, a arranjar uma janela de minha casa. O contrapeso da guilhotina soltou-se da roldana e eu estive a tentar tirá-lo de dentro da parede.
– Um trabalho que não é fácil.
– Pois não. Seja como for, desisti e vim passear o Bradley-cão, já que não conseguia consertar a janela. Lembras-te deste cão?
– Chama-se… como é que ele se chama?
– Bradley. Acabei de te dizer. Exactamente como eu. É mais simples chamar-lhe “Júnior”. Assim, não há confusões. É a minha companhia. Mas, pelos vistos, tu também não consegues dormir, pois não? – pergunta ele, de olhos fixos a meia distância, como se estivesse a falar consigo próprio, como se eu fosse uma intimação dele. – Já somos dois. – Recosta-se. – Três, se contarmos com o cão.
– Acordei a ver coisas – explico.
– Que coisas?
– Não me apetece falar sobre isso – respondo.
– Está bem.
– Oh, olha, acordei a ver manchas.
– Manchas?
– Sim, Uma espécie de manchas à frente dos olhos. Mais pareciam dentes de rodas.
– Como se fossem engrenagens ou uma coisa desse género?
– Acho que sim. Rodas com dentes a girarem e depois a aproximarem-se umas das outras, até começarem todas a rodar ao mesmo tempo, com os dentes encaixados uns nos outros. – Esfrego o braço, picada de mosquito.
Na sombra, um lado do rosto dele parece prestes a desmoronar, como se o esforço de fazer uma cara alegre tivesse finalmente fracassado e ele tivesse perdido o seu optimismo diurno. Suspira e coça o Júnior atrás das orelhas. Em resposta, o cão arreganha um enorme sorriso.
– Engrenagens. Nunca tinha ouvido essa. Pelos vistos, tu não dormes melhor do que eu. Somos dois soldados do exército da insónia. – Espreguiça-se e estica o corpo para inspirar fundo. – Uma irmandade. De homens e de mulheres. Sabias que a Marlene Dietrich era uma insone crónica?
– Não, não sabia.
– Sabes o que ela fazia para se entreter à noite?
– Não, não sei.
– Fazia bolos – diz-me ele. – Li isto no jornal de domingo. Fazia pães-de-ló e depois, durante o dia, oferecia-os aos amigos. A Marlene Dietrich. Tinha o ar que tinha, aqueles olhos, porque não conseguia dormir bem. Ora eu – diz ele, ajeitando-se no banco –, eu fico aqui quieto, muito quieto, como aquele tipo, como é que ele se chama?, o bom do Buda, a pensar no mundo, no mundo em que eu e tu vivemos, e chego a uma série de conclusões. Conclusões e soluções. Ultimamente, tenho andado a pensar em soluções extremas. Como se costuma dizer, problemas extremos requerem soluções extremas.
– “Soluções extremas”? De que é que estás a falar? E não me incluas na tua irmandade. Eu vim só dar um passeio pelo bairro.
– “Um passeio pelo bairro”! Meu Deus – diz ele, apontando-me um dedo como se fosse uma pistola –, tens sorte se um carro-patrulha não te levar dentro.
– Oh, eu sou uma pessoa respeitável – respondo.
– Ouve-me só as coisas que tu dizes. “Respeitável”! Estás vestido como um vagabundo. Um rufia. É ilegal andar pelas ruas à noite, nesta terra, não sabias? – Levanta-te para me olhar de alto a baixo, com ar interrogativo. Ao que parece, não gosta do que vê. – Dá-te um ar de perigo para a segurança pública. Acusam-te de vagabundagem e arrastam esse teu coiro para a cadeia. Já não é permitido passear à noite, a menos que tenhas um cão. O cão – aponta para o seu próprio cão – torna os passeios legais. O cão torna a coisa legítima. Eu tenho um cão. Tu devias arranjar um cão. É melhor um cão de gente fina, como um collie ou um golden retriever, um cão com licença do estado. Mas qualquer cão serve. Vai por mim: as pessoas felizes estão todas em casa a dormir, enroscadinhas juntas, imersas nos seus sonhos. – Diz estas palavras com desprezo. – Os bem-afortunados. – Senta-se, mas continua com ar alvoroçado. – Os malditos bem-afortunados… Então, conta lá: qual é o teu problema? – Dá-me um sorriso de gnomo. – Peso na consciência? Estás com um bloqueio e não consegues escrever?
– Não, já te disse. Acordei desorientado. Isto está constantemente a acontecer-me. Deve ser de andar a pensar num livro. Tenho de sair à rua para que passe. Seja como for, eu já tenho um cão.
– Não sabia. Onde é que ele está? – Olha à sua volta, fingindo que está à procura.
– A dormir. Ela não gosta de sair à rua comigo, à noite. Não gosta de me ver assim desoriendado.
– É esperta. Então quer dizer que não sabes onde é que estás? É isso?
– É. Mas neste momento sei onde estou.
– Talvez estejas demasiado metido no mundo da ficção. Bom, não ligues ao que eu digo. Mas, ouve, já que aqui estás, conta-me como é que esse teu novo livro começa. Qual é a primeira frase?
Ponho-me a tentar arrancar uma pastilha elástica do sapato.
– Não. Eu não funciono assim. Não conto essas coisas ao deus-dará.
– Anda lá. Sou teu vizinho, Charlie. Conheço-te desde… há quanto tempo é que nos conhecemos?
– Doze anos – respondo.
– Doze anos. Achas que vou roubar-te a tua frase? Eu nunca faria isso. Eu não faço essas coisas. Não sou escritor, graças a Deus. Sou um homem de negócios. E artista. Vá. Conta lá. Diz-me como é que o teu romance começa.
Recosto-me por um instante.– “O homem” – recito –, “– eu, e mais ninguém, ao que parece – acorda de sobressalto.”»

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Imprensa:

«Eduardo Mendicutti debruçado sobre a identidade

Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy é o primeiro livro de Eduardo Mendicutti a ser publicado em Portugal. Por trás do título "light", esconde-se "uma história sobre a identidade e a memória", na voz de um transexual. O Ípsilon foi descobrir o escritor. Sílvia Caneco

Eduardo Mendicutti tem uma vaidade. Tem uma vaidade e orgulha-se dela: "Dei aos homossexuais voz própria na literatura." As personagens dos seus livros são quase sempre de territórios à margem. São homossexuais, travestis, transexuais. Mas não são contadas, contam-se a si mesmas. Eduardo Mendicutti tem essa vaidade e não teme ostentá-la. "Ainda existe muita ignorância sobre como são essas pessoas. Há muitas etiquetas. Contadas pela voz dos outros, parece que são sempre iguais. Mexem-se assim, falam desta maneira. É preciso conhecer para poder dar uma imagem verdadeira", afirmou o escritor, na passagem por Lisboa para o lançamento de Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, o primeiro exemplar da sua obra a ser publicado em Portugal, pela Bico de Pena. O romance de estreia nas bancas portuguesas não é excepção àquele orgulho algo missionário. Insiste na identidade e na memória, numa história que tem como protagonista um transexual contado na primeira pessoa.

Mendicutti, ex-crítico literário, é escritor há mais de 30 anos. Em Espanha, muitos críticos rendem-se à irreverência e ao humor dos seus romances. Mas recusa "o rótulo de escritor humorista". Com mais de dez obras publicadas, o escritor nascido em Sanlúcar de Barrameda, Cádis, em 1948, faz do humor uma marca do seu discurso literário mas rejeita que o estigma que reduz o humor " a um fenómeno literário de segunda categoria" comprometa o cunho de seriedade e de reflexão das suas histórias. "Há uma tendência para encarar o humor como um registo menor. Dizer que não se podem contar coisas sérias com sentido de humor é um absurdo."

Sentado num sofá do hotel Tivoli, em Lisboa, Eduardo Mendicutti dá poucas respostas sem cunho de ironia. "O sentido de humor é um pouco a minha linguagem", diz , a certa altura da entrevista. Confirma-se. Dá umas gargalhadas sonoras e ri tantas vezes que o riso parece ter-se tornado um tique ou um vício. Veste um fato inteiro que cai pesado num dia tórrido de final de Setembro. Tem um rosto bolachudo e comprido, olhos claros, muito abertos, mas é fácil que as atenções se afastem para a testa alongada, a perder de vista entre o cabelo grisalho miudamente escovado para trás.

Aos 24 anos, trocou Cádis, os setes irmãos e o colégio interno da infância por Madrid, cidade que nunca mais foi capaz de abandonar. Estudou Jornalismo mas nunca quis ser jornalista. "Era o curso que mais se parecia com o que já sabia que queria fazer durante a vida toda: escrever. Sempre pensei 'Eu, jornalista? Estou louco? Passar horas numa redacção? ´Não é vida para mim!'" Mas raramente abdica do método da investigação para dar corpo às personagens dos seus livros. Acredita que elas precisam de ser credíveis, apesar de serem ficcionadas.

Para escrever Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, que chega a Portugal dez anos depois de ter sido publicado em Espanha, falou com transexuais e mergulhou no universo da literatura mística. O livro conta a história de Rebecca de Windsor, um transexual que um dia se confronta no espelho com as marcas do tempo. Para envelhecer com o mesmo esplendor com que em tempos foi uma diva do espectáculo, Rebecca de Windsor toma uma decisão: tornar-se santa. Cansada de uma vida rendida à imagem, inicia uma peregrinação em busca da iluminação espiritual por abadias e conventos de Espanha, onde devora exemplares de literatura mística como as obras de Santa Teresa ou de San Juan de La Cruz. "A tradição da literatura espanhola está muito ligada à literatura mística. Essa linguagem é difícil, arcaica. Precisava de ler algumas obras para adicionar a carga mística certa à linguagem da personagem, para não parecer falsificada."

O percurso de Rebecca de Windsor não é inspirado numa história biográfica. Eduardo Mendicutti interessou-se antes pelo "conflito interno", em compreender como uma mulher que se fez a si própria com a ajuda de hormonas, cirurgia e cosmética "é capaz de lidar com as cicatrizes do tempo" e qual o lugar da memória numa mulher nascida menino ou num homem nascido menina.

Usou a transexualidade não como pretexto secundário, mas como tema literário em si mesmo "que poderia explorar tanto nos aspectos argumentais e psicológicos como nos aspectos verbais e estilíticos".

A identidade é um tema em que cai quase sempre nos seus romances. Também na memória. Também na ânsia de perfeição. Também no confronto "entre o que alguém é e o que deseja ser".

Começou por escrever contos. O seu primeiro romance, escrito em 1973, nunca chegou a ser publicado. Era a censura de Franco a aprisionar a criação. Hoje recusa torná-lo público. "Era demasiado experimental", diz. Recebeu prémios como o Café Gijón, Sésamo e o Andaluzia de Crítica de 2002. Escreve sempre a partir de um título. Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy surgiu numa conversa espontânea com um amigo. Escritor e editores temiam que desse a ideia de um livro frívolo, superficial, e pensaram mudá-lo. No último momento, Mendicutti não foi capaz. "Era como estar a atraiçoar a obra, estar a viver como os 'gays' viveram durante anos - escondido." Dois dos seus romances foram adaptados ao cinema. Uma das adaptações - Los Novios Bulgaros, realizado por Eloy de la Iglesia - passou no Queer Lisboa em 2003. É colunista do El Mundo e da revista "gay" Zero e assina um comentário na rádio onde fala até sobre futebol, terreno em que se diz "uma espécie de 'hooligan' irremediável". Antes de assinar colunas e crónicas, dedicou-se à crítica literária. "Era um daqueles tipos insuportáveis que diziam mal de todos." Mendicutti não tenciona voltar, a menos que seja "num território estrangeiro onde ainda não seja odiado", afirma, rindo a meio das palavras. "As críticas literárias deviam ser como os delitos: deviam prescrever passados alguns anos."»

Ípsilon, Público, 26 de Outubro de 2007
Imprensa:

«Em diferido Eduardo Mendicutti

Os ínvios caminhos da santidade

Autor de mais de uma dezena de romances, Eduardo Mendicutti conversou com Os Meus Livros a propósito da edição em português de Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, um livro que a superficialidade classificaria como "provocatório" e que se debate com questões tão universais como a identidade, a memória e o tempo. Sara Figueiredo Costa

O título pode levar a equívocos, iludindo sobre a profundidade do conteúdo. Eduardo Mendicutti tem uma obra extensa publicada em Espanha e está finalmente traduzido entre nós, com Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy (com a chancela da Bico de Pena). O livro é um road novel inesperado onde o caminho se faz muito mais de descobertas emocionais e da inevitável sombra do regresso do que dos avanços físicos entre paragens.

É, para além disso, uma obra que dialoga explicitamente com uma tradição literária que lhe é anterior, apresentando remissões frequentes para alguns dos monumentos da literatura em castelhano, como Dom Quixote, de Cervantes, ou os textos místicos de Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz. E sobre o diálogo com a tradição literária espanhola, o autor defende que "é muito interessante quebrar a tradição, mas é mais interessante conhecê-la, antes de qualquer outra coisa. E essa é, aliás, a única forma de a quebrar, de a desafiar. Acredito que uma forma de adaptar essa tradição que nos antecede é considerá-la noutros termos, com outros elementos. E isso até já o tinha experimentado no livro Los Novios Bulgaros, onde a personagem principal é totalmente quixotesca e onde a estrutura dos títulos é uma referência directa à obra de Cervantes".

O facto de a personagem central de Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy ser uma mulher que em tempos foi um homem poderá focar as atenções do romance no tema da transexualidade e na inevitável suspeita de provocação, já que Rebecca de Windsor - assim se chama aquele que um dia foi Jesus López Soler - decide procurar o caminho da santidade. Mas o que de facto interessou a Eduardo Mendicutti foi o tema da identidade e da sua construção: "Um dos impulsos que todos temos é o de querer enriquecer a nossa personalidade através da construção de uma identidade própria. A identidade não é algo estático e invariável, e se há um conflito com o que é, impõe-se a necessidade de tornar mais complexa a personalidade, conquistando algo novo". A escolha de uma personagem transexual revelou-se pertinente para esta reflexão em torno da identidade, na medida em que acrescenta de modo quase visceral um tópico intrinsecamente relacionado, o da memória. Como nos explicou o autor, "a memória é uma forma de nos inventarmos, na medida em que só recordamos o que queremos, ou do modo que queremos; mas apesar disso, as recordações que guardamos têm uma base real, e o que me interessou foi procurar perceber, no caso de um transexual, até onde chega o bisturi. Ao corpo físico, certamente, mas chegará à memória? Será capaz de apagar as recordações anteriores, verdadeiramente hostis e dolorosas?" No caso de Rebecca, as memórias permanecem, e um dos desafios do seu percurso pelos caminhos da santidade será o de aprender a conviver com elas. Mas Rebecca é uma personagem ficcional, e à ficção não cabe resolver unanimemente as dúvidas da realidade.

Espiritualidade e humor
O caminho de Rebecca de Windsor em busca da santidade estabelece um paralelismo propositado com as experiências místicas de Santa Teresa de Ávila, decritas em As Moradas. Também Rebecca, aspirando à condição de santa, passará por sete moradas, acompanhada por um jovem musculado com vagas conotações com São João da Cruz, e a sua aprendizagem acabará por passar mais pela aceitação da inevitável degradação do corpo que tanto lhe custara a conseguir do que pela assunção de uma forma de espiritualidade que não é a sua. Este contraste entre o carnal e o espiritual não é gratuito, como nos explicou o autor. "A ideia de que as emoções associadas à espiritualidade não têm nada a ver com a vertente corporal é absurda. Somos como somos e as nossas emoções surgem também do nosso corpo, da nossa carne, das nossas pulsões. Por outro lado, eu não fui o primeiro a relacionar as experiências místicas com as pulsões físicas e sexuais, e só alguém com dificuldade em aceitar o seu corpo poderia afastar ambas as coisas de modo definitivo".

Para tornar credível o paralelo com os místicos espanhóis e conseguir que o modo de falar de Rebecca remetesse para estes textos sem perder a coloquialidade que lhe é inerente, Mendicutti dedicou muito tempo à leitura de Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. "Naturalmente, li e reli todas as obras de que dispunha, de modo a habituar-me à sonoridade da linguagem e às suas características quase pictóricas. Claro que no momento de recriar essa linguagem e às suas características quase pictóricas. Claro que no momento de recriar essa linguagem, tive de abdicar de algumas coisas, para conseguir alguma fluidez com marcas de contemporaneidade. Foi exercício complexo, principalmente até encontrar o tom certo, mas o resultado deixou-me satisfeito", confessa.

Apesar da seriedade com que se aborda o percurso de Rebecca de Windsor, há momentos em que o humor assume um papel essencial na exposição de contradições sociais ou religiosas e nas deambulações monologais da personagem em reacção ao mundo que agora descobre. E o autor confirma a importância que lhe atribui e o potencial que lhe encontra: "na literatura, o humor é um instrumento extremamente rico e muito maleável; admite muitos registos e tons, permite, quer uma ironia quase subterrânea, quer um tom mais agressivo. Com o humor pode ser-se delicado, lírico, combativo, provocante, corrosivo, destrutivo, perverso, carinhoso... é um registo que admite todas as possibilidades e eu espero ter conseguido, nos meus livros, e neste romance em particular, tornar presentes dessas possibilidades".

O próximo livro
O próximo livro de Eduardo Mendicutti a ser editado em português, igualmente pela Bico de Pena, intitula-se Califórnia e passou por um processo de gestação que durou vários anos, levantando a suspeita de que talvez nunca viesse a escrever-se. Sobre isso, diz-nos o autor: "Califórnia era um romance que estava às voltas na minha cabeça há anos. Eu ia muito à Califórnia quando era mais novo e sempre me pareceu que tinha de utilizar as coisas que vi e as experiências que tive para contar o que vivi, porque a vida não é ficção e para a ficção é preciso saber modificar os elementos da realidade a que se recorre. Mas durante muito tempo, não consegui encontrar um sentido, uma história, para esse conhecimento e essas experiências. Até que encontrei esse sentido naquilo que veio a ser a segunda parte do romance e percebi todo o percurso do personagem." A acção de Califórnia acompanha os anos de juventude de Charlie naquele estado americano e o seu regresso, já adulto, a Espanha, mostrando as mudanças que se produzem no seu modo de pensar e agir e deixando implícita a certeza de que toda a gente pode mudar, "mesmo que seja para melhor", brinca o autor. Se no início do romance, Charlie se preocupa pouco com o que se passa em Espanha e com as mudanças que a querda de Franco poderá trazer, preferindo viver sem repressões a sua sexualidade e a sua liberdade, na segunda parte acompanhamos Carlos de regresso ao seu nome espanhol e em busca de uma cidadania que implica um assumir de responsabilidades que nunca lhe interessou. E esse é, afinal, "um regresso à Califórnia, agora percebida como um estado de espírito, um local onde esperamos por dias de sol mesmo que chova a potes, proque na Califórnia real chove muitíssimo!"

Apesar de Mendicutti ser um escritor com obra extensa e consolidada, dificilmente se salva da edituqeta de "autor de literatura gay". Contudo, o autor não se mostra disponível para atribuir demasiado peso à eterna moda das etiquetas. "Os escritores que escrevem livros onde a temática gay está presente costumam revoltar-se muito com essa etiqueta, porque isso implica que serão avaliados segundo um ponto de vista preconceituoso. E há duas possibilidades perante isso: aceitar o preconceito e recusar a definição (não a etiqueta, mas a própria definição!) de 'literatura gay', ou recusar o preconceito, recusando também a ideia inerente de que a temática gay é inferior a qualquer outra, ou vergonhosa, ou desinteressante. Quando falo de 'literatura gay', não estou a falar de um género, mas sim de uma temática, reflexo de uma certa 'cultura', com vivências específicas e com uma linguagem, não necessariamente verbal, própria. E isso não significa mais nem menos do que qualquer outra temática; convive com outros livros de outras temáticas e está ao alcance de qualquer leitor, independentemente das vivências e da sua orientação sexual".

Sem dar demasiada importância à etiqueta de que tanto se fala, mas igualmente sem recusar o seu conteúdo, Mendicutti nega qualquer intenção de compartimentar aquilo que escreve, facto que se confirma com a leitura deste Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, tão específico na construção de uma personagem inesquecível como universal no questionamento do modo como a memória se constrói na identidade de cada ser humano.»

Os Meus Livros, Novembro de 2007
Crítica de imprensa:

Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, Eduardo Mendicutti

«A estrada celestial

Rebecca de Windsor nasceu com corpo de homem, mas há muito que resolveu o problema, encontrando a forma física correcta para a sua identidade. Agora, é uma mulher que se sente envelhecer e, para o fazer da melhor maneira, decide que será santa. Este é o ponto de partida para um verdadeiro "road novel" que parodia a prosa mística do Século de Ouro Espanhol enquanto reflecte sobre a identidade e a memória, o modo como nos definem e as possibilidades que temos de moldá-las.
O caminho de Rebecca em direcção à santidade, procurando seguir os passos de Santa Teresa de Ávila, levá-la-á a enfrentar recordações dolorosas e a perceber que a recusa do que se é não permitirá nenhuma honestidade perante o que se quer ser; do mesmo modo que nunca poderia ser um rapaz, porque era uma rapariga que se sentia, nenhuma santidade a poderia tocar se para isso tivesse de recusar impulsos tão essenciais à humanidade como a protecção do próprio corpo e o respeito pelas suas necessidades. As sete moradas de Santa Teresa transformam-se, assim, em sete etapas de reconciliação e o discurso místico reveste-se de uma coloquialidade construída fielmente em relação à sua origem e aos seus objectivos. O humor pode ser uma arma contra a sisudez; aqui, é igualmente um instrumento para a reflexão mais profunda sobre o que é ser-se humano.»

Sara Figueiredo Costa, revista Os Meus Livros, Novembro de 2007

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Lançamento (actualizado):


Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy
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O escritor espanhol Eduardo Mendicutti esteve em Lisboa de 24 a 26 de Setembro para apresentar o seu primeiro livro publicado em Portugal, Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy. O lançamento decorreu no auditório do Instituto Cervantes, que se encheu para ouvir o escritor falar da sua obra e da sua carreira como autor. A sua visita contou ainda com uma ampla cobertura mediática, com várias entrevistas para a imprensa e para a rádio. A sua obra é amplamente louvada pela crítica e foi galardoada com prémios de destaque, tais como o Café Gijón, o Sésamo e o Premio Andalucía de la Crítica, e encontra-se traduzida em diversos idiomas.
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O evento:



Mendicutti (à direita) esclarece o público sobre o que o inspirou a escrever Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy.



O autor assina o seu livro, sob o olhar atento do editor da Bico de Pena, o Sr. Mário de Moura.
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O livro:

Sinopse:
Rebecca de Windsor, uma diva do mundo do espectáculo, descobre um dia, frente ao espelho, que o tempo começa a deixar marcas no seu fabuloso corpo. Rebecca sempre quis – e sempre conseguiu – ser a melhor em tudo, e não vai deixar que algo tão banal como a idade afecte o seu esplendor. Qual é a maneira mais elegante de uma diva envelhecer? É óbvio, conclui Rebecca: tornar-se santa. Mas não uma santa qualquer, uma dessas místicas de trazer por casa; não, uma santa de luxo, uma santa do melhor que há, a santa mais sexy de que há memória. Porque Rebecca de Windsor, nascida Jesús López Soler, passou por muitas contrariedades até conquistar o seu estatuto presente, não só de mulher, como de paradigma de beleza e elegância. Para o culminar, só mesmo a santidade. Rebecca parte então numa viagem mística por conventos e abadias de Espanha, na senda espiritual de Santa Teresa de Ávila.
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Críticas de imprensa:
«Romance inovador, iconoclasta, irreverente, ao mesmo tempo sensível, inteligente e carinhoso, Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy explora, entre o sorriso e a gargalhada, o laborioso processo de construção do ser humano, a possibilidade de se ser quem se quer realmente ser.»
La Vanguardia
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«Encontramos aqui um Mendicutti mais clássico – escrita correctíssima, agilidade narrativa, alegres coloquialismos – com o acréscimo de um misticismo que faz certas concessões a um pastiche da prosa espiritual do Século de Ouro sem perder a sua criatividade linguística.»
El Mundo
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«O talento literário de Mendicutti é indiscutível.»
El Cultural
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«A carreira literária de Eduardo Mendicutti está marcada por uma narrativa vivaz, ágil e muito fresca.»
El Mundo
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Sobre o Autor:
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Eduardo Mendicutti nasceu em Cádiz em 1948. Vive em Madrid desde 1972, onde se licenciou em jornalismo. Colabora regularmente com diversas publicações espanholas de renome. A sua obra foi galardoada com prémios de destaque, como o prémio Café Gijón, o prémio Sésamo e o Premio Andalucía de la Crítica, é amplamente louvada pela crítica e encontra-se traduzida para diversos idiomas. Dois dos seus romances foram adaptados com muito sucesso ao cinema pelos realizadores Jaime de Armiñán e Eloy de la Iglesia.
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Excerto:
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«A iluminação
Há seis meses, tomei uma firme decisão: ser santa. Vê-se, porém, que no santoral não há lugar para uma santa tão sexy.
Se calhar dá trabalho compreender que uma mulher tão sexy como eu se entregue à santidade, mas essa decisão não a tomei porque me desse o siroco, mas porque, numa noite escura, e encontrando-me enfrascada em trabalhos de manutenção com produtos da senhora dona Margaret Astor, tive uma iluminação.
[...]
Porque essa é outra: eu não ia ser uma santa corrente, eu ia ser uma santa de luxo. Uma dessas santas que têm desmaios, êxtases, feridas nas mãos como as chagas de Cristo, e que vivem sem viver em si. Eu não ia ser uma santa qualquer. O que acontece é que eu não posso, nem quero, ser uma santa de muito respeito em troca de deixar de ser quem sou.
Com o trabalhinho que me custou ser uma mulher inteira e verdadeira. Com a coragem que me fez falta. Sobretudo quando, há dez anos, tomei outra drástica decisão: operar-me, deixar na sala de operações os últimos estorvos de uma masculinidade errada e converter-me por fim, verdadeiramente e para sempre, na mulher mais sexy do mundo. E é isso que tem sido a minha vida, um rosário de determinações cortantes que apenas tinham a finalidade de me pôr cada vez mais a meu gosto, cada vez melhor, mais divina, foi sempre o que me disse toda a gente, filha, Rebecca, tu sempre com as tuas manias de perfeição. De modo que, depois desse currículo, não me ia contentar com um estatuto de santa de segunda categoria. Isso sem contar que, quando tive a iluminação, soube que a minha vocação era ser amada no Amado transformada. Que bonito.
[...]»

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Imprensa:

«Queer Lisboa arranca hoje à noite nas salas do São Jorge

O Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa [patrocinado pela Bico de Pena], que começa hoje e se prolonga até dia 22 no Cinema São Jorge, adopta este ano, na sua 11.ª edição, a designação Queer Lisboa, menos extensa, mas mais abrangente. A sua responsabilidade é clara, como bem o frisam as palavras do director João Ferreira: "Exibir importantes propostas cinematográficas, retrato e consequência das diversas realidades sociais das comunidades e indivíduos queer de todo o mundo, não acessíveis ao grande público." Este ano, o Queer Lisboa apresenta algumas novidades. Para além de prosseguir a sua aposta nas secções competitivas para Melhor Longa- -Metragem, Melhor Documentário e Melhor Curta-Metragem, o festival apresentará uma retrospectiva dedicada a um conjunto de filmes de expressão marcadamente queer que o realizador português Óscar Alves realizou entre 1975 e 1978, em "Panorama de uma Cinematografia Gay Portuguesa dos Anos 70". Outra das novidades é a secção Queer Pop, consagrada às expressões queer na música, e no âmbito da qual serão apresentados dois documentários, bem como três programas de telediscos.Paralelamente à programação central, destaque-se ainda o Panorama de Curtas-Metragens, secção dedicada a um conjunto de curtas de produção anterior a 2006. Haverá também uma sessão especial em que será exibido The Blossoming of Maximo Oliveros (2005), um dos maiores êxitos no circuito dos festivais queer internacionais de 2005 a 2006. No âmbito de outra das responsabilidades do Queer Lisboa, que é a de promover a reflexão sobre temas suscitados pelas narrativas e estéticas cinematográficas queer, o festival organizará três debates. Um sobre as personagens homossexuais na ficção televisiva portuguesa; outro intitulado "Uma Cinematografia Gay Portuguesa dos Anos 70", a propósito da retrospectiva do cinema de Óscar Alves; e ainda, motivado pelo filme de encerramento (The Picture of Dorian Gray, de Duncan Roy), o debate "Flores Verdes, ou a importância de se chamar Wilde", onde se falará da influência do escritor irlandês no cinema e na cultura pop. A cerimónia de abertura terá lugar hoje, pelas 21.00, com a apresentação das secções competitivas e do júri internacional, a que se seguirá a projecção do filme brasileiro A Casa de Alice, de Chico Teixeira. A actriz Cucha Carvalheiro é a presidente do júri para a Melhor Longa-Metragem. Já o júri para o Melhor Documentário tem como presidente a realizadora Ana Luísa Guimarães. Há ainda espaço para um mercado de livros e DVD, bem como uma série de festas.

Mais informações no site www.lisbonfilmfest.com, ou no blogue http://queerlisboa.blogspot.com.

Nuno Carvalho, Diário de Notícias, 14 de Setembro de 2007

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Imprensa:

«Diz-me com quem dormes e eu digo-te o que escreves?

É ainda pudica e pouco ousada. Mas dá vontade de começar a perguntar: o que é isso de literatura Lésbica, “Gay”, Bissexual e Transgénero e “Queer” em Portugal? Dá caução? Está a criar moda? Quem escreve – e é homossexual – responde: os autores Eduardo Pitta, Frederico Lourenço ou Pedro Gorski falam da sua obra. Miguel Vale de Almeida, antropólogo, lembra o seu “outing”. Uma autora, “hetero”, como Rosa Lobato Faria, antecipa ao Ípsilon o seu novo romance. Narrado por um homossexual.

Texto Isabel Coutinho
Ilustração João Fazenda


Numa palestra em Portugal, em 2001, o professor e crítico literário norte-americano Harold Bloom indignou-se contra os que, segundo ele, promovem “obras-primas de esquimós lésbicas”. Numa entrevista ao PÚBLICO foi ao pormenor: “Agora temos obras-primas de lésbicas esquimós. A minha mulher não gosta nada que eu diga isto. É uma coisa que vai chegar aqui. […] Vão dizer muito bem de poemas terríveis, apenas porque são escritos por lésbicos de Cabo Verde.”
Nessa entrevista, falou de autores esquecidos que estão a ser recuperados como autores “gay”. Contou uma história que lhe acontecera três anos antes, quando deu uma conferência na “muito politicamente correcta” Universidade da Califórnia.
“Estava a dar uma conferência, quando a sala literalmente explodiu. Queriam mesmo linchar-me, só porque eu, finalmente, disse a verdade. Virei-me para eles e disse-lhes: ‘Muitos de vocês, nesta sala, são professores de Literatura, mas não gostam realmente de literatura. Se comprarem uma mesa a um carpinteiro que por acaso é mexicano-americano, ou marxista, ou homossexual, e ele vos entrega uma mesa com as pernas a cair, vocês devolvem-na e exigem o vosso dinheiro. Mas estão mais do que dispostos a aceitar livros sem pernas. São completamente hipócritas. Há quotas [nos EUA] para mulheres, negros, mexicanos e homossexuais nas faculdades de Direito e Letras, mas não na de Medicina. Sabem porquê? Porque se vocês, os politicamente correctos, estiverem numa mesa de operações para ser operados ao cérebro e a médica que vai fazer a cirurgia for uma negra lésbica devastadoramente atraente – tento ser o mais ofensivo possível – que, explicam-vos, se qualificou com base na sua origem étnica e orientação sexual, todos vocês saltam imediatamente dali para fora’. Começou tudo a gritar comigo. ‘Racista! Fascista!’ E eu respondi-lhes, também aos berros: ‘Vocês são um nojo, são degradantes. Não têm qualquer argumento racional para opor ao que eu digo. São uns vigaristas. Todos vocês saltavam da mesa de operações’. Foi uma guerra. Mas haverá alguma ideia socialmente mais repugnante do que pretender que é mais benéfico para uma jovem cabo-verdiana que vem viver para Portugal ler obras dos seus compatriotas, por más que sejam, do que Eça ou Almeida Garrett? Outro dia fui falar de cinco dos meus poetas preferidos: Whitman, Pessoa, Lorca, Hart Crane e o maravilhoso Luís Cernuda. São todos homossexuais, mas que me interessa saber se eles preferem dormir com homens ou mulheres?”
Seis anos depois, o Ípsilon tenta confirmar a futurologia de Bloom – “é uma coisa que vai chegar aqui”. Há ficção “gay” e lésbica portuguesa? Promovem-se romances sem qualidade só porque são de autores “gay”? O que é isso de literatura LGBT (Lésbicas, “Gays”, Bissexuais e Transgénero) e “Queer”. É preciso ser homossexual para ter uma obra considerada “gay”, lésbica ou “queer”?
Autores como Eduardo Pitta, Frederico Lourenço ou Pedro Gorski publicaram nos últimos anos contos, romances, escrita autobiográfica e ensaio que se incluem na definição de “literatura gay”. Surgiram nas livrarias estantes dedicadas ao género, tendo sido criada uma editora, a Bico de Pena, destinada à literatura LGBT. E não estamos a falar de “nichos”. O “mainstream” não passa ao lado: em Setembro, a escritora Rosa Lobato Faria vai publicar “A Alma Trocada” (Asa), romance em que o narrador é um homossexual que “sai do armário”.
A criação da Bico de Pena (em 2005), que dedica uma colecção em exclusivo aos títulos LGBT, a Pena de Pavão, parece ser a ponta de um “iceberg” de mudança. Mas, na verdade, em todo o catálogo só foi editado um livro de contos de um autor português: “As Lágrimas de Bibi Zanussi e Outros Contos”, de Pedro Gorski (pseudónimo de um pintor).
Quando a editora foi lançada, o objectivo era, por um lado, “explorar um nicho de mercado com uma oferta relativamente escassa”; por outro, havia o desejo de ver publicados autores de destaque desconhecidos em Portugal.
“É certo que Edmund White, Gore Vidal, Allan Hollinghurst e Sarah Waters eram já publicados no nosso país. Mas foi com prazer que apresentámos Augusten Burroughs, Terenci Moix, Rita Mae Brown e Dennis Cooper”, diz Joana M. Neves, assistente editorial da Bico de Pena.
As vendas “têm sido positivas, embora lentas”. Não se esperava um “boom”. Apostou-se nos “long-sellers”. Inesperada, já agora, foi a reacção “conservadora” de alguns livreiros ao design das capas. “A capa do livro ‘As Lágrimas de Bibi Zanussi e Outros Contos’, uma foto de um negro com uma flor entre nádegas, chocou alguns livreiros, que se recusaram a ter ‘livros desses’ em exposição. Mas devemos também salientar que diversos livreiros declararam que já fazia falta dar esta visibilidade à literatura LGBT.”
Curiosamente, diz Joana, tem havido comentários de agentes, editores e até de críticos acerca da própria “categoria” de literatura gay. “O que nos leva, perguntam-nos, a publicar um livro na colecção de literatura ‘gay’? Para quê esta ‘classificação’?”
É uma discussão ampla, que não se aplica só à literatura. “A nossa postura tem sido a de que as categorias valem o que valem, mas tendo em conta o quanto o nosso mercado é ‘inundado’ de novidades, os livros têm de se destacar. Atribuir-lhes categorias é uma forma – simplista, mas eficaz – de lhes dar destaque. O que nos leva a publicar um livro na colecção Pena de Pavão é um critério igualmente simplista, se se quiser: ter qualidade literária e como temática uma relação homossexual (aquilo que evitamos a qualquer custo é tudo o que seja mal escrito ou minimamente panfletário)”.

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Pedro Gorski, o autor de “As Lágrimas de Bibi Zanussi…”, optou por usar um pseudónimo quando publicou o livro porque “oferecia a falsa segurança de separar por algum tempo esta aventura” da sua “actividade profissional já decorrente”. Enviou o manuscrito para dez editoras, não só para aquelas que já haviam divulgado obras “gay”. “A minha ingenuidade começou a ser evidente à medida que os meses passavam sem resposta. Até que uma amiga me telefonou de Atenas, em inspiração sibilina, indicando-me a direcção correcta. Foi, assim, o manuscrito parar ao grupo editorial em que acabara de nascer a Bico de Pena, onde o género literário em que me inscrevia era uma aposta forte, junto de outros temas de sublinhada irreverência.”

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Literatura Lésbica, onde estás?

Nem ousada, nem pudica: a ficção lésbica feita por autoras portuguesas e publicada em editoras com visibilidade, essa é que parece não existir. Há livros que têm personagens homossexuais e lésbicas, como “Os Sinais do Medo”, o primeiro romance de Ana Zanatti (2003, Dom Quixote) – o segundo, “Agradece o Beijo” (2005), tem personagens transexuais. Publicadas em editoras com menor visibilidade existem “Alice e o Abismo”, de Leonor Campos (Novo Livro, 2002) e “Descobre-me”, de Sandra Soares (Occidentalis, 2006). E ainda romances de Marta Tasmânia em edições de autor. Mas parece tudo diluído na nuvem da “literatura feminina” e da teia dos afectos.
“A escrita de autoras assumidamente lésbicas não existe em Portugal ou existe com qualidade muito pobre”, diz a activista “queer” Anabela Rocha. “A escrita de práticas assumidamente lésbicas por autoras mulheres vai existindo, mas em escritas também sem qualidade literária e que repetem narrativas identitárias ainda presas ao medo de ser homossexual.”
Acrescenta: “Na poesia portuguesa temos maior maturidade no erotismo lésbico e maior consciência feminista. Com tão poucas autoras a assumirem uma literatura feminista, pós-colonial; com tão pouca literatura feita por mulheres a reflectir sobre a diversidade da vida das mulheres em Portugal, não admira que não exista literatura lésbica.”
Como é que pode haver? “Não necessariamente apostando apenas no grande romance, mas apostando no romance popular, como muitas colecções em França e Espanha. Aquilo a que podemos chamar uma literatura urbana de modelos de vida segura, tranquila e feliz. Não é um retrato real de todas as vidas lésbicas; mas é uma esperança e uma boa leitura de praia”, conclui.
Em Setembro, uma mulher, Rosa Lobato Faria, 75 anos, publicará nas Edições ASA “A Alma Trocada”. Tem como personagem principal Teófilo, um homossexual. “Este livro não é diferente de nenhum outro; por acaso, a personagem é homossexual.”
Teófilo apareceu-lhe e ela deixou-o falar, tal como as outras personagens dos seus livros. “Teófilo é uma personagem como outra qualquer”. Agradou-lhe a ideia de um homossexual contar a sua história e sair do armário. Abordou o tema do ponto de vista social, não gosta de sociedades preconceituosas.
Não teve nenhuma intenção prévia. “Nunca me passaria pela cabeça escrever um livro para o inserir num género”. Diz que nem é de ir em modas. Mas a verdade é que desde que se soube que escreveu sobre um homossexual a solicitação dos “media” não tem parado. “Gostei daquele homem cheio de fragilidades porque não o deixaram crescer como ele devia ter crescido. É um homem que me é simpático.” Para escrever este livro não fez pesquisa porque a personagem é seu contemporâneo. Considera que o tema principal do romance é a “ideia da escolha das famílias do coração, em contraponto com as famílias de sangue”.
“Se isto puder ajudar alguém, já valeu a pena escrever o livro. Ajudar alguém a ser feliz na sua plenitude sexual. Mas não o fiz com essa intenção”, diz.
Ali Smith, a autora escocesa de “A Acidental”, romance premiado com o Whitbread Novel Award e publicado pela Bico de Pena, quando passou por Lisboa em 2006 disse ao Ípsilon que quando se trata de livros é importante não metê-los em guetos. Assumidamente lésbica, falava de categorizar livros em “gay e lésbicos”, de “auto-ajuda”, “thrillers”. Sabe a importância de ser escocesa, homossexual, ex-católica. Mas lembrava: “Eu não sou o meu livro, nunca serei o meu livro ou mesmo um livro. Sou uma pessoa e os livros têm que fazer o seu trabalho. Tem que ser livros e têm que ser donos da história que contam.”
Voltámos ao princípio, a Harold Bloom a falar dos seus escritores preferidos: “São todos homossexuais, mas que me interessa saber se eles preferem dormir com homens ou com mulheres?”»

Artigo completo no suplumento Ípsilon, Público, sexta-feira 24 de Agosto de 2007